Pular para o conteúdo principal

A greve dos professores em SP: partidarismo inescrupuloso e utilização da categoria como massa de manobra

"... Um pouco antes, ela [a presidente da APEOESP] convocou os professores a "acabarem com o partido" de Serra: "Estamos aqui para quebrar a espinha dorsal desse partido e desse governador", disse Bebel, como é conhecida. E perguntou ainda: "Vocês acham que o Serra vai ser eleito?". E os manifestantes responderam "não" em coro."

"A greve decretada pelo sindicato dos professores de São Paulo é uma greve contra os pobres --a sorte do sindicato é que os pobres não sabem disso."
Gilberto Dimenstein, na Folha

D e s d e   o início da greve dos professores da rede pública do estado de São Paulo em 8 de março,  desencadeada pelo discurso inflamado da presidente do sindicato da categoria e apoiado pelos seus representantes regionais em todas as diretorias de ensino do estado e principalmente estimulada pelos sindicatos e associações ligadas ao PT, tomei a iniciativa de escrever sobre o assunto a fim de expor minha opinião sobre os fatos, porém resolvi aguardar o desfecho do movimento que começou sem credibilidade alguma, perdeu a razão ao tumultuar o caótico transito de São Paulo, e configurou-se como um movimento partidário através das declarações infelizes de sua presidente e de seus enfrentamentos com policiais na capital que acabou resultando em vários feridos – entre eles professores e até policiais.

É preciso se considerar que, antes de mais nada, greve é um direito de todo trabalhador, e sua utilização como instrumento de mobilização é uma arma democrática poderosa de defesa dos direitos e na busca por benefícios igualitários em uma sociedade tão desigual quanto a nossa – isso desde que seja construída e desenvolvida de forma genuína com os interesses da classe trabalhadora acima das disputas partidárias e eleitoreiras, o que não aconteceu desta vez.

Já participei de movimento grevista, bem como também deixei de participar de outros quando não vi de fato o interesse da categoria de qual fazia parte soberanamente considerados na manifestação. E tive uma relativa sorte nas duas ocasiões: em um ato mal pensado e mal planejado alguns colegas simplesmente perderam a razão e por isso tiveram de arcar com as conseqüências, e em outro conseguimos negociar parte da pauta de reivindicações, além de recebermos apoio do TRT responsável pela região. As medidas incabidas da empresa na ocasião contra a nossa paralisação foram punidas de forma rigorosa e até hoje a empresa cumpre obrigações junto ao TRT por desrespeitar os trabalhadores – apesar de suas manobras utilizando a mídia e das tentativas de desestabilização do bom relacionamento entre famílias de trabalhadores perseveramos numa manifestação pacífica, negociadora e acima de tudo justa.

A utilização do instrumento da greve de forma ilegítima como luta partidária em ano de eleições pela executiva do sindicato dos professores em São Paulo acabou por tornar-se num episódio vergonhoso para a sua liderança e aos professores paulistas que a ela aderiram. Não posso negar de maneira alguma o direito de mobilização por melhores salários, melhores condições de trabalho e por valorização que os professores possuem, bem como a real necessidade de melhorias no setor, porém os boatos propagados pelo movimento em relação a medidas adotadas pelo governo como parte da reestruturação do programa educacional da rede pública estadual (como por exemplo o repúdio ao Projeto de Alfabetização Ler e Escrever do qual tive oportunidade de participar como universitário-pesquisador no último semestre do ano passado e a falsa informação de que a propaganda do governo referente a presença do 2° professor em sala de aula era enganosa) simplesmente corroboraram para manifestar o real interesse do movimento grevista. Assim, a utilização de um meio legítimo com propósitos ilegítimos e finalidades escusas acabou por se arrastar sem êxito algum.

Desta forma, a utilização ilegítima de um instrumento democrático legítimo em um estado de direito como o nosso pode tornar-se numa arma contra a democracia, contra os interesses da maioria da população e transformar em caos a sociedade organizada. Se não, vejamos: professores mobilizados em greve, alunos sem aula nas instituições, vandalismo nas ruas, caos no transito de grandes cidades... e consequentemente professores sem salários (o que ocorrerá em maio com os profissionais que aderiram ao movimento), descrédito da população no ensino público, manifestações totalitárias e sem nenhum respeito pelas liberdades e direitos dos demais cidadãos...

Concluindo, reconheço que a luta por melhores condições salariais e de trabalho bem como pela valorização de uma categoria indispensável ao desenvolvimento humano e social de uma sociedade deve ser uma constante até que os problemas sejam substancialmente resolvidos. As esferas governamentais a nível federal, estadual e municipal precisam ser sensibilizadas para essa realidade. Por outro lado, os professores não podem fugir da luta, mas também não podem jamais ceder aos apelos do partidarismo eleitoreiro e sem compromisso  com a cidadania, responsabilidade e pela atitude republicana proposto pelos partidos de oposição, afinal a classe não pode em nenhum momento deixar-se ser utilizada como massa de manobra. Só assim alcançaremos êxito em uma luta pela igualdade, pelo reconhecimento e pela valorização de nossos bons profissionais através de mobilização justa e genuinamente legítima cujos meios e fins genuinamente democráticos se encarregarão de construir uma sociedade justa e solidária, ciente de seus compromissos e responsabilidades individuais e sociais.



S i d n e i   M o u r a

Comentários

  1. Achei muito intressante o seu blog e logo me identifiquei , pois concordo em alguns aspectos do que foi apresentado ,me utilizei de um dos seus texto para me embasar durante a construçao de minha monografia.Seus textos são execelentes,te desejo sucesso e que o Senhor abençoe a sua vida.. Fike na Paz

    Rainilda

    ResponderExcluir
  2. Rainilda,

    Muito obrigado!

    Se quiser compartilhar comigo, conte-me que textos utilizou para sua monografia e qual foi o seu resultado. Será um prazer, pois isso apenas contribui com o meu propósito de colaborar!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

COMENTÁRIOS ANÔNIMOS NÃO SERÃO POSTADOS!

Postagens mais visitadas deste blog

Ex-genro de David Miranda contará em livro porquê deixou a Igreja Deus é Amor

SERGIO SORA ANUNCIOU EM SEU PERFIL NO FACEBOOK QUE PUBLICARÁ LIVRO  SOBRE SUA SAÍDA DA IGREJA PENTECOSTAL DEUS É AMOR. SEGUNDO ELE, O LIVRO REVELARÁ "COISAS QUE ESTÃO OCULTAS AOS OLHOS DE MUITOS" E  ESTARÁ DISPONÍVEL EM ATÉ SEIS MESES.
Apontado até então como sucessor e herdeiro natural do trono de David Miranda, de seu púlpito blindado no maior templo evangélico da America do Sul no centro de São Paulo, e de mais de 9 mil igrejas o então presbítero Sergio Sora casado com a cantora Leia Miranda (filha mais nova de David Miranda) foi desligado da Igreja Deus é Amor  em 2005 por acusações de exigir a renúncia de David Miranda da presidência da igreja e por tê-lo submetido a cárcere privado e violência. Sora nega as acusações. Nas últimas semanas em sua página no Facebook Sora divulgou a informação de que decidiu publicar em um livro os principais motivos que o levaram a se desligar da igreja há seis anos, presidida por seu ex-sogro e em que por mais de vinte anos ocupou a funçã…

Centro de Cultura e de Artes de São Carlos oferece cursos gratuitos

O Centro Municipal de Arte e Cultura (Cemac) de São Carlos oferece 626 vagas para 23 cursos gratuitos voltados para todas as idades.

As vagas são divididas entre as áreas de teatro, circo, dança, samba rock, dança do ventre, desenho, aquarela, fotografia, percussão, gaita, violão, coro, produção de beats e mandalas.

Ao todo, são 32 turmas nos períodos da manhã, tarde e noite. Entre elas há opções para crianças a partir de 6 anos até adultos com mais de 45.

A programação completa pode ser consultada no site e as inscrições devem ser realizadas no Cemac, na Rua São Paulo, 745, no Centro.

As aulas serão ministradas a partir de 25 de março no Cemac, no Centros de Artes e Esportes Unificados “Emílio Manzano” e em Santa Eudóxia.

O telefone (16) 3419-8997 está disponível, das 8h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h, para mais informações.

O Bocado Molhado - o apelo final de Cristo à Judas Iscariotes

Queriote, localidade de Moabe (Jr 48.24), a pouco mais de vinte e dois quilômetros ao sul de Hebrom, e a vinte e cinco quilô­metros a oeste do mar Morto, era uma cidade como outra qual­quer, não fosse a referência a um de seus filhos — Judas Iscariotes, no hebraico Ish-Querioth, "Homem de Queriote". Escolhido para o colégio apostólico, Judas tinha nas mãos as mais inacreditáveis oportunidades; afinal de contas, Jesus o havia escolhido para um elevado ofício: cuidar das finanças do grupo apostólico. Certamen­te possuía características que justificassem sua escolha. 
Seguindo as pegadas de Judas durante o ministério público de Jesus, podemos delinear o perfil deste, que será lembrado por toda a história como o "traidor". Suas atitudes gananciosas revelam profundas feridas, veias maléficas que o acompa­nharam durante toda a vida. Judas era o único dos discípulos de Jesus que não provinha da Galiléia; era de Queriote, Judéia. Os habitantes da Judéia desprezavam os nat…