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O maior patrimônio da igreja são as pessoas




“Nossos colaboradores – nosso principal patrimônio”. Esse foi o slogan de comemoração de uma empresa metalúrgica ao alcançar uma marca recorde de materiais produzidos e comercializados – sua diretoria havia chegado a conclusão de que o investimento maciço de recursos na formação, treinamento e capacitação de seus funcionários era o maior responsável pela marca alcançada, e logo sua reputação a colocou entre as melhores do país e a transformou na maior exportadora de produtos de seu ramo de atuação no mercado internacional, tornando-se assim orgulho de seus colaboradores e familiares. Na cidade toda não se comentava outra coisa: havia tornado-se um sonho para muitos trabalhadores a oportunidade de integrar seu quadro de funcionários. Trabalhar ali era sinônimo de estabilidade e valorização  em todos os sentidos.

Porém, o tempo passou, e o enriquecimento rápido de seus executivos acabou por cegá-los quanto ao investimento na qualidade de vida de seus trabalhadores – agora, o foco era apenas lucrar e lucrar, independente dos meios que fossem necessários para alcançar suas metas. Começaram então a colocar em atividade um plano de redução de custos radical, que começou com a suspensão de diversos benefícios de seus trabalhadores e culminou com a demissão de grande parte de seu efetivo funcional. A empresa acabou se tornando um verdadeiro parque industrial fantasma, e o que era símbolo de orgulho tornou-se “piada”. Quem se manteve nos cargos, agora lutavam apenas pela sobrevivência ao fantasma do desemprego suportando os desmandos e toda sorte de imposição, como sobrecarga de trabalho, falta de benefícios básicos e congelamento de salários.

Quando as pessoas deixam de ser o foco de uma instituição, seja ela qual for, é sinal básico de que as finalidades foram desviadas, e portanto, as pessoas acabaram por perder seu real valor como indivíduos, sendo reduzidas a mero objetos de fácil manipulação, domínio e controle. Infelizmente, a história que acabo de lhes contar acima é também uma realidade no evangelicalismo brasileiro neste presente século em muitas igrejas, onde o foco, a finalidade, acabou por ser desviada para outros interesses. 


Em muitos lugares, o patrimônio físico e material das instituições tornou-se mais importantes que os investimentos nas pessoas – na formação e desenvolvimento espiritual como também no assistencialismo, na atenção que deveria ser direcionada aos mais carentes e necessitados. Nesses locais, a ostentação das posses e a  exacerbada atenção a questões redundantemente superficiais são valorizadas em detrimento da preocupação com a “edificação do corpo de Cristo” e no cuidado com os pobres. Em algumas delas, enquanto as centrais ostentam seu patrimônio, as chamadas “extensões” – as congregações de bairros – que geralmente estão localizadas nas regiões periféricas, e contam com pouco ou nenhum recurso são ignoradas pelas lideranças, esquecendo-se de que na maioria das vezes os recursos acumulados são oriundos dessas igrejas que fielmente remetem sua arrecadação às centrais por imposição institucional.

De certo modo, o desvio de finalidade na questão de investimento das instituições cristãs se da pelo  fato  de estarmos vivendo um momento impar – um período difícil onde a inversão de valores e a veneração do ter em detrimento do ser insiste em tornar-se algo aceitável diante dos olhos das lideranças, motivados muitas vezes pela “competição” ministerial, pela busca do “sucesso” a qualquer preço e do reconhecimento barato. Resultado: os investimentos físicos, financeiros e de influencia deixam de ser utilizados na formação cultural e espiritual das pessoas e do devido cuidado com menos favorecidos dando lugar a aquisição desnecessária de propriedades, a incrementação de instrumentos e “planos” ineficazes na edificação das pessoas e muito menos para a evangelização dos que estão de fora e o conseqüente enfraquecimento da maior e melhor propriedade que uma igreja deve ter – as pessoas.

Em todo seu ministério terreno, Jesus nunca valorizou coisas acima de pessoas. Pelo contrário, utilizou todos os seus esforços para trazer para perto de si desde os mais pobres, carentes e necessitados aos mais abastados, influentes e dignitários da elite da época. Seu foco era as pessoas. Sabendo da responsabilidade que seus discípulos teriam na liderança e condução do povo nos caminhos do evangelho após sua morte, ressureição e ascenção aos ceus fez questão de certificar-se de que seus discípulos estivessem cientes e preparados, mantendo-se sempre presente ensinando, redargüindo, corrigindo e operando sinais. Nem mesmo de uma ovelha perdida ousou desistir. Nem mesmo do ladrão da cruz.

É importante salientar que a igreja do século XXI precisa aparelhar-se de uma estrutura básica para cumprir seus objetivos de evangelização e assistencialismo a fim de que alcance o maior número possível de pessoas com a mensagem da cruz, porém não se pode perder o foco nas pessoas. Já no velho testamento, o cuidado com os pobres deveria ser prioridade: eles sempre estariam entre nós (Deuteronômio 15:11), e na nova aliança regida pelo amor, a virtude mais importante do plano da salvação cristã (1Corintios 13: 13), o cuidado com os “domésticos na fé” a fim de que suas necessidades espirituais e materiais fossem supridas pelos mais experientes e possuidores de melhores condições deveria ser marca da igreja cristã de acordo com o padrão neotestamentário (Gálatas 6:10).

Qual deve ser o cartão de visita de uma igreja autêntica, de uma instituição comprometida com os ideais do Reino de Deus - suas posses, seu patrimônio físico e material, seu aparelhamento midiático, seus templos imponentes e suntuosos? Definitivamente, o maior patrimônio da igreja cristã, indiscutivelmente, são as pessoas.

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