Pular para o conteúdo principal

Supercontrole - o cerceameento da imprensa argentina pelo governo Kirchner


Sylvia Colombo


A aprovação da lei que praticamente estatiza a produção e a distribuição de papel-jornal na Argentina foi a ação mais vistosa do novo governo da presidente Cristina Kirchner, que teve início no último dia 10 de dezembro.

Mas a lei do papel-jornal é apenas uma entre um pacote de medidas aprovadas a toque de caixa pelo Congresso nesses últimos dias do ano.

A Câmara de Deputados e o Senado, agora com maioria kirchnerista, aprovaram em tempo recorde para tempos de democracia um pacote de seis leis em apenas onze dias.

A oposição contesta, diz que o tempo foi muito exíguo para tratar de assuntos tão sensíveis, que precisariam de mais discussão. Senadores que acabavam de iniciar seus mandatos, e que não tiveram chance de estudar os temas, já tiveram de tomar decisões com relação a eles. Mas o fato é que todas as leis já estão valendo.

Entre as mais polêmicas, além da lei do papel-jornal, estão a Lei de Terras, que limita a compra destas por parte de estrangeiros, a Lei do Peão Rural, que transfere o registro de trabalhadores rurais de grêmios para o Estado, e a Lei Antiterrorista, para punir o financiamento de práticas terroristas.

A Lei Antiterrorista também poderá ser aplicada contra os meios de comunicação, caso um juiz entenda que uma notícia sobre a economia assuste a população a ponto de fazer com que as pessoas corram para comprar dólares, provocando fuga de capitais. Ou se concluir que uma denúncia sobre corrupção ou outro fato político "assuste" as pessoas e afete a governabilidade do país.

O que ficou nítido ao assistir a maratona dos senadores no período pré-natalino é que o governo quis aproveitar a ampla vantagem eleitoral para aprovar suas prioridades, antes que os ventos da crise global possam começar a abalar e economia e ameaçar a popularidade de Cristina.

A dinâmica das votações expôs a polarização entre kirchneristas e não-kirchneristas. Enquanto a oposição fazia longos discursos e tentava evitar a aprovação tão rápida das medidas, os governistas simplesmente votavam, com poucas palavras.

Todas as leis aprovadas geram a mesma preocupação. O que o governo vinha anunciando como "profundização do modelo" é, na verdade, um aumento do poder de ingerência do Estado na política e na economia.

Também causa preocupação o fato de o Congresso responder de forma tão automática aos pedidos da presidente, sem discutir apropriadamente os assuntos. Mais um sinal da fragilidade institucional que o país vive hoje, em que esses plenários estão completamente submetidos à vontade da presidente.

Se essa última quinzena do ano for uma amostra do que virá por aí, o país viverá tempos de maior controle da política e da economia e de uma centralização ainda maior de decisões em distintas áreas.

Publicado na  Folha com o título "Supercontrole".


Fonte: Texto & Contexto - um novo ponto de encontro com a literatura, artes, mídias e configurações da imprensa contemporânea.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ex-genro de David Miranda contará em livro porquê deixou a Igreja Deus é Amor

SERGIO SORA ANUNCIOU EM SEU PERFIL NO FACEBOOK QUE PUBLICARÁ LIVRO  SOBRE SUA SAÍDA DA IGREJA PENTECOSTAL DEUS É AMOR. SEGUNDO ELE, O LIVRO REVELARÁ "COISAS QUE ESTÃO OCULTAS AOS OLHOS DE MUITOS" E  ESTARÁ DISPONÍVEL EM ATÉ SEIS MESES. Sergio Sora em sua igreja no RJ Apontado até então como sucessor e herdeiro natural do trono de David Miranda, de seu púlpito blindado no maior templo evangélico da America do Sul no centro de São Paulo, e de mais de 9 mil igrejas o então presbítero Sergio Sora casado com a cantora Leia Miranda (filha mais nova de David Miranda) foi desligado da Igreja Deus é Amor  em 2005 por acusações de exigir a renúncia de David Miranda da presidência da igreja e por tê-lo submetido a cárcere privado e violência. Sora nega as acusações. Nas últimas semanas em sua página no Facebook Sora divulgou a informação de que decidiu publicar em um livro os principais motivos que o levaram a se desligar da igreja há seis anos, presidida por seu ex-sogro e

Igreja Deus é Amor proíbe “retetés” e outras práticas não ortodoxas em seus cultos

Fundada em 1962, a igreja Pentecostal Deus é Amor do Missionário David Miranda é hoje uma das maiores denominações evangélicas do país. Oriunda dos movimentos de cura divina da segunda safra do pentecostalismo brasileiro, a igreja Deus é amor chega ao limiar de seu jubileu de ouro mantendo as características que a tornaram conhecida: seu modelo de liderança centralizado em uma única pessoa (seu fundador e presidente vitalício); a extrema valorização dos usos e costumes (cujas proibições se estendem a todas as áreas da vida de seus fieis, incluindo a proibição de visitar ou participar de eventos em outras denominações); o forte uso do rádio como instrumento midiático de suporte as atividades desenvolvidas pela igreja (“império” este que agora ameaça ruir diante de recorrentes escândalos envolvendo “laranjas” e novas políticas de concessão de serviços de radiodifusão do governo federal) e a falta de compromisso com o ensino bíblico e teológico formal e sistemático, o que a difere da

A morte da David Miranda e as novas reviravoltas na Igreja Deus é Amor - Leia Miranda está de volta à denominação

Sidnei Moura Logo após a confirmação da morte do fundador e  presidente vitalício da Igreja Pentecostal Deus é Amor, ventilou-se por todos os lados que David Miranda de Oliveira (mais conhecido na denominação como David Filho), filho mais velho de Miranda, seria seu sucessor no trono, presidência e cabina blindada do "Templo da Glória de Deus" - a sede mundial das Igrejas Deus é Amor em São Paulo. Para surpresa da maioria, Ereni de Oliveira Miranda, viúva do missionário, foi empossada como líder suprema da denominação. Como se não bastasse tantas reviravoltas, o que o público não podia nem mesmo imaginar era o retorno de Leia Miranda à denominação, mas o ocorrido acaba de ser notificado e confirmado por Débora Miranda em sua conta oficial no Facebook, e pela própria Leia Miranda, em sua rede social. O retorno de Leia Miranda Em 2005 após uma confusão não muito bem explicada que teve como estopim uma possível agressão de Miranda contra sua esposa Ereni no