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Sousa Mendes e a preservação de famílias judias e de outras nacionalidades no Holocausto Nazista


André Barcinski
O diplomata português  Sousa Mendes

Quando recebi o e-mail com o título “Informações importantes sobre sua família”, achei que era mais um daqueles spams picaretas.A mensagem vinha de uma fundação que tentava identificar parentes de vitimas de perseguição nazista que fugiram da Europa em 1940, ajudadas pelo diplomata português Aristides de Sousa Mendes.

A carta que recebi, assinada por uma pesquisadora da Fundação Sousa Mendes, trazia informações detalhadas:

“A família Barcinski foi ajudada por Sousa Mendes. Os nomes que aparecem na lista de vistos são Alicja, Jacek, Maria e Irena Barcinski, assim como Henryk Elsner, que, acreditamos, era parente de Irena (…)”

A história era verdadeira. Alicja era minha bisavó. Irena era irmã dela. Henryk era pai delas, meu tataravô. Jacek e Maria, crianças na época, eram sobrinhos de Alicja e Irena.

Ao longo dos anos, ouvi parentes contando histórias sobre a fuga da família para o Brasil, vinda da Polônia. Mas não conhecia detalhes. E nunca tinha ouvido falar de Aristides de Sousa Mendes. Em 1940, Sousa Mendes era cônsul português em Bordeaux, na França. Um ano antes, o governo de Salazar havia proibido os consulados portugueses de emitir vistos para “estrangeiros de origem indefinida, sem pátria, ou judeus expulsos de seus países de origem”. Contrariando as ordens de Salazar, Sousa Mendes emitiu milhares de vistos para que os perseguidos – judeus ou não – pudessem escapar da Europa. Ele ordenou o fim dos trâmites burocráticos no consulado e acabou com taxas consulares, para acelerar o processo de emissão de vistos. Sabia que tinha pouco tempo antes que fosse descoberto.Estima-se que cerca de 30 mil pessoas, incluindo 12 mil judeus, foram salvas do Holocausto por ele.

Um documento da época traz a resposta de Sousa Mendes a um burocrata do governo português, que reclamou da concessão de visto para um professor austríaco, Arnold Wizntzer:

“Ele me informou que, se não saísse da França naquele mesmo dia, seria mandado para um campo de concentração, deixando sua mulher e filhos abandonados. Considerei uma obrigação elementar de humanidade evitar que tamanha barbaridade acontecesse.”

O governo de Salazar ordenou que Sousa Mendes voltasse a Portugal e o processou por insubordinação. Salazar chegou a ameaçar quem o ajudasse. Impedido de trabalhar, Sousa Mendes morreu na pobreza, em 1954.Foi só no fim dos anos 80, depois de décadas de luta da família Sousa Mendes, que o governo do Portugal se desculpou oficialmente.

Duas coisas me abalaram especialmente nessa história.

A primeira é só tê-la descoberto agora, depois de uma vida inteira sem saber ao certo como minha família fugiu de Lodz e foi parar no Brasil. A segunda é pensar o quanto eu devo para Sousa Mendes. E imaginar que minha filha, que está brincando no quintal aqui ao lado, não existiria se não fosse por esse português boa praça.

Publicado com título "Sousa Mendes, o nosso Schindler"



Comentários

  1. Nassu Oliveira, João Pessoa-PB

    Li recentemente o livro "Um Homem Bom", de autoria do escritor português Rui Vicente, sobre a vida deste grande português Aristides de Sousa Mendes, que arruinou sua carreira diplomática e colocou em risco a sobrevivência de seus doze filhos ao enfrentar Salazar para salvar milhares de vidas. É, sem dúvida, uma das grandes figuras do século passado.

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    1. Olá Nassu,

      De fato Sousa Mendes é um exemplo da luta pela dignidade da vida humana. Muito obrigado por sua visita e comentário!

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