Pular para o conteúdo principal

deus - status: desconectado


Paulo Brabo

Perto do final da vida o teólogo e ativista Dietrich Bonhoeffer começou a preocupar-se com o fato de que a compreensão cristã de Deus havia sido em grande parte reduzida ao status de uma muleta psicológica. Ele descreveu essa compreensão como um “Deus ex machina”.

A expressão, que significa “deus proveniente de uma máquina”, refere-se originalmente a uma técnica usada na Grécia antiga, pela qual uma pessoa era descida ao palco através de um mecanismo, a fim de representar a entrada em cena de um ser sobrenatural. O processo, no entanto, ganhou uma má reputação quando muitos dramaturgos de segunda categoria começaram a usar esse artifício de modo indolente e arbitrário. Quando queriam matar um personagem, criar um novo desafio para o protagonista ou resolver um conflito do enredo, essas caras simplesmente arriavam um deus história adentro. Desse modo, o ser sobrenatural não era parte orgânica da história, mas uma presença intrusiva empregada unicamente para fazer o enredo avançar ou resolver alguma questão.

A expressão deus ex machina passou a significar a introdução de um elemento que não faz parte da lógica interna do desdobramento de uma história, mas que é na verdade um artifício deselegante despejado na narrativa só para desempenhar um papel específico.

Para Bonhoeffer, a igreja encara Deus como um deus ex machina. Deus é só uma ideia toscamente despejada no nosso mundo a fim de cumprir uma tarefa. Ele é inserido no mundo em nossos próprios termos a fim de resolver um problema, em vez de expressar uma realidade vivida. O resultado disso é um Deus que simplesmente justifica nossas crenças e nos ajuda a dormir tranquilos. Deus é trazido em cena apenas quando enfrentamos um problema que não se presta a ser resolvido por outros meios. Na visão de Bonhoeffer, esse Deus desempenha o mesmo papel medíocre dos seres sobrenaturais nas peças gregas de terceira categoria.

O resultado é uma fé que só existe nas margens da nossa vida, uma fé que só tem algo a oferecer quando nos sentimos deprimidos, assustados ou diante da morte. Mas e aquela pessoa que gosta de viver e abraça a vida? O Deus que é uma muleta psicológica não parece ter-lhe algo a oferecer. A única opção que resta ao apologista que é confrontado com alguém que de fato aprecia a vida é tentar demonstrar que essa pessoa se recusa a enfrentar a realidade e está na verdade clamando por Deus pela via de sua negação. Se não conseguir convencer essa pessoa feliz de que ela é na realidade infeliz, fica sem outra opção não rejeitá-la como alguém aferrado à rebelião, ao engano e à desobediência.

Embora Bonhoeffer acreditasse que o Deus da religião já havia chegado ao fim de sua carreira no nosso mundo, a realidade parece discordar. Algumas das maiores organizações do mundo são religiosas, e parece não haver um fim para a fila de gente disposta e encher os pratos de coleta daqueles que afirmam ter a solução. Há todo um exército de indivíduos que apoia entusiasticamente os seus ministérios, compra os seus livros e senta-se nos seus bancos. Levar as pessoas a crer em alguma forma de deus ex machina é fácil como levar crianças a acreditar em Papai Noel.

Em contraste, convidar gente a abrir-se para experimentar a dúvida e o desconhecido é muito mais complicado: o Deus da religião nos provê com tamanha estabilidade que a experiência de perdê-lo envolve nada menos do que a aterrorizante experiência de ser abandonado. Tal jornada escuridão adentro pode ser tão pouco natural e tão assustadora que evitamos a todo custo esse caminho estreito, usando até mesmo de violência contra quem nos encoraja a fazê-lo.

Aquele que se compromete com a tarefa de ajudar gente a realmente adentrar o domínio da dúvida, do desconhecido e da ambiguidade precisa ser dez, vinte ou cem vezes melhor do que os que vendem certeza. Se quer convidar pessoas a entrar nesse mundo sombrio e incerto, tem de estar preparado para caminhar ele mesmo por um caminho difícil e por vezes perigoso, pois no processo acaba trazendo à superfície toda uma multidão de ansiedades que gastamos muito tempo e muitos recursos reprimindo.

É compreensível que determinados pastores encham estádios com gente que anseia por solidificar desejos já estabelecidos, reconvertendo gente à aquilo a que já se converteram tantas vezes antes. Levar as pessoas a acreditar é fácil precisamente porque é tão natural em nós. Qualquer pessoa persuasiva pode fazê-lo, e ainda ganhar algum dinheiro no processo. Mas para de fato puxar da tomada o Deus da religião, com toda a ansiedade e angústia que o processo envolve, requer-se coragem.

Pode-se na verdade dizer que requer-se Deus.

Peter Rollins, em sua Insurreição

Fonte: A Bacia das almas

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ex-genro de David Miranda contará em livro porquê deixou a Igreja Deus é Amor

SERGIO SORA ANUNCIOU EM SEU PERFIL NO FACEBOOK QUE PUBLICARÁ LIVRO  SOBRE SUA SAÍDA DA IGREJA PENTECOSTAL DEUS É AMOR. SEGUNDO ELE, O LIVRO REVELARÁ "COISAS QUE ESTÃO OCULTAS AOS OLHOS DE MUITOS" E  ESTARÁ DISPONÍVEL EM ATÉ SEIS MESES.
Apontado até então como sucessor e herdeiro natural do trono de David Miranda, de seu púlpito blindado no maior templo evangélico da America do Sul no centro de São Paulo, e de mais de 9 mil igrejas o então presbítero Sergio Sora casado com a cantora Leia Miranda (filha mais nova de David Miranda) foi desligado da Igreja Deus é Amor  em 2005 por acusações de exigir a renúncia de David Miranda da presidência da igreja e por tê-lo submetido a cárcere privado e violência. Sora nega as acusações. Nas últimas semanas em sua página no Facebook Sora divulgou a informação de que decidiu publicar em um livro os principais motivos que o levaram a se desligar da igreja há seis anos, presidida por seu ex-sogro e em que por mais de vinte anos ocupou a funçã…

O Bocado Molhado - o apelo final de Cristo à Judas Iscariotes

Queriote, localidade de Moabe (Jr 48.24), a pouco mais de vinte e dois quilômetros ao sul de Hebrom, e a vinte e cinco quilô­metros a oeste do mar Morto, era uma cidade como outra qual­quer, não fosse a referência a um de seus filhos — Judas Iscariotes, no hebraico Ish-Querioth, "Homem de Queriote". Escolhido para o colégio apostólico, Judas tinha nas mãos as mais inacreditáveis oportunidades; afinal de contas, Jesus o havia escolhido para um elevado ofício: cuidar das finanças do grupo apostólico. Certamen­te possuía características que justificassem sua escolha. 
Seguindo as pegadas de Judas durante o ministério público de Jesus, podemos delinear o perfil deste, que será lembrado por toda a história como o "traidor". Suas atitudes gananciosas revelam profundas feridas, veias maléficas que o acompa­nharam durante toda a vida. Judas era o único dos discípulos de Jesus que não provinha da Galiléia; era de Queriote, Judéia. Os habitantes da Judéia desprezavam os nat…

Centro de Cultura e de Artes de São Carlos oferece cursos gratuitos

O Centro Municipal de Arte e Cultura (Cemac) de São Carlos oferece 626 vagas para 23 cursos gratuitos voltados para todas as idades.

As vagas são divididas entre as áreas de teatro, circo, dança, samba rock, dança do ventre, desenho, aquarela, fotografia, percussão, gaita, violão, coro, produção de beats e mandalas.

Ao todo, são 32 turmas nos períodos da manhã, tarde e noite. Entre elas há opções para crianças a partir de 6 anos até adultos com mais de 45.

A programação completa pode ser consultada no site e as inscrições devem ser realizadas no Cemac, na Rua São Paulo, 745, no Centro.

As aulas serão ministradas a partir de 25 de março no Cemac, no Centros de Artes e Esportes Unificados “Emílio Manzano” e em Santa Eudóxia.

O telefone (16) 3419-8997 está disponível, das 8h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h, para mais informações.